Ora, sobre esta questão julgo que o que distingue o pensamento científico do pensamento não científico é a vontade de testar as ideias que, de alguma forma, arranjamos.
Normalmente, a tendência humana é arranjar ideias de forma leviana e fazer tudo para encontrar confirmações — chegamos por vezes ao ponto de fugir de tudo o que contradiga o que pensamos.
Ora, um cientista tenta pensar doutra forma: "então, tenho a ideia X... Muito bem, tenho de arranjar forma de a testar." Reparem, a forma de arranjar as ideias até pode continuar a ser leviana. O segredo está no que se segue: no testar é que está o ganho.
E o que é testar? Testar é atacar sem piedade a nossa ideia, tentando ver se ela se aguenta. Este teste tem várias caras, que podemos pôr na forma de perguntas:
a) Será que há algum facto ou factos conhecidos que contradigam a ideia?
b) Será que posso realizar alguma experiência que teste a ideia, ou seja, que possa detectar da forma mais rigorosa possível se a ideia é falsa? (Atenção: não vamos tentar provar que a ideia é verdadeira; vamos tentar encontrar o teste mais rigoroso possível para tentar provar que é falsa...)
C) Será que há alguma explicação melhor para os factos conhecidos e para os resultados da minha experiência? (Sobre a forma de, racionalmente, escolher entre duas explicações plausíveis para os mesmos factos e resultados teremos de pensar um pouco, mas lá voltaremos.)
Nada disto é natural e é (muito) difícil. O cientista pode ter de recusar uma ideia de que gosta muito e na qual investiu muito e isto vai contra o instinto humano. Mas, para a ciência, deixar ideias falsas para trás é a forma de avançar. Para o instinto humano, pelo contrário, a forma de avançar é arranjar certezas sólidas. Não espanta que a ciência precise de melhorar constantemente e de se vigiar constantemente.
Depois do trabalho do cientista, o teste da comunidade científica. Outros vão analisar o trabalho, que tem de ser publicado de forma detalhada, para melhor ser atacado (quão longe estamos doutras áreas humanas, em que fazemos exactamente o contrário). O cientista tem de realizar experiências replicáveis e tem de imaginar formas de deixar os outros invalidar os seus resultados.
Mesmo as ideias que passem todos estes testes só são válidas provisoriamente: até haver uma nova ideia e novos testes que representem melhoras explicações para os factos observados. E, quem sabe, há sempre hipótese de haver um facto que deita a ideia por terra.
Portanto, o segredo está em atacar, testar, tentar deitar abaixo ideias que temos. Porque, para um cientista, pior do que abandonar uma ideia querida é ficar convencido duma ideia falsa.
Assim, o cientista tem de estar preparado para mudar de ideias, se os dados assim o exigirem. Tem de
combater o nosso apego emocional às ideias.
combater o nosso apego emocional às ideias.
(Este método é muitas vezes mal aplicado, falha, tem consequências imprevisíveis, mas sobre isso falaremos mais tarde...
Entretanto, se tiverem alguma ideia ou critica a esta análise, digam-me, por favor. Porque não quero ter um post bonito. Quero é mesmo perceber isto...)
(Só uma última nota: o cientista não ataca pessoas, mas sim ideias. Porque sabe que é assim que melhor serve os colegas e a humanidade.)
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