segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

O que distingue o pensamento científico?

Sou apenas um aprendiz nestas coisas, tenho de dizer desde já. Mas tenho uma grande vontade de aprender.

Ora, sobre esta questão julgo que o que distingue o pensamento científico do pensamento não científico é a vontade de testar as ideias que, de alguma forma, arranjamos.

Normalmente, a tendência humana é arranjar ideias de forma leviana e fazer tudo para encontrar confirmações — chegamos por vezes ao ponto de fugir de tudo o que contradiga o que pensamos. 

Ora, um cientista tenta pensar doutra forma: "então, tenho a ideia X... Muito bem, tenho de arranjar forma de a testar." Reparem, a forma de arranjar as ideias até pode continuar a ser leviana. O segredo está no que se segue: no testar é que está o ganho.

E o que é testar? Testar é atacar sem piedade a nossa ideia, tentando ver se ela se aguenta. Este teste tem várias caras, que podemos pôr na forma de perguntas:

a) Será que há algum facto ou factos conhecidos que contradigam a ideia?

b) Será que posso realizar alguma experiência que teste a ideia, ou seja, que possa detectar da forma mais rigorosa possível se a ideia é falsa? (Atenção: não vamos tentar provar que a ideia é verdadeira; vamos tentar encontrar o teste mais rigoroso possível para tentar provar que é falsa...)

C) Será que há alguma explicação melhor para os factos conhecidos e para os resultados da minha experiência? (Sobre a forma de, racionalmente, escolher entre duas explicações plausíveis para os mesmos factos e resultados teremos de pensar um pouco, mas lá voltaremos.)

Nada disto é natural e é (muito) difícil. O cientista pode ter de recusar uma ideia de que gosta muito e na qual investiu muito e isto vai contra o instinto humano. Mas, para a ciência, deixar ideias falsas para trás é a forma de avançar. Para o instinto humano, pelo contrário, a forma de avançar é arranjar certezas sólidas. Não espanta que a ciência precise de melhorar constantemente e de se vigiar constantemente.  

Depois do trabalho do cientista, o teste da comunidade científica. Outros vão analisar o trabalho, que tem de ser publicado de forma detalhada, para melhor ser atacado (quão longe estamos doutras áreas humanas, em que fazemos exactamente o contrário). O cientista tem de realizar experiências replicáveis e tem de imaginar formas de deixar os outros invalidar os seus resultados.

Mesmo as ideias que passem todos estes testes só são válidas provisoriamente: até haver uma nova ideia e novos testes que representem melhoras explicações para os factos observados. E, quem sabe, há sempre hipótese de haver um facto que deita a ideia por terra.

Portanto, o segredo está em atacar, testar, tentar deitar abaixo ideias que temos. Porque, para um cientista, pior do que abandonar uma ideia querida é ficar convencido duma ideia falsa.

Assim, o cientista tem de estar preparado para mudar de ideias, se os dados assim o exigirem. Tem de 
combater o nosso apego emocional às ideias.

(Este método é muitas vezes mal aplicado, falha, tem consequências imprevisíveis, mas sobre isso falaremos mais tarde...

Entretanto, se tiverem alguma ideia ou critica a esta análise, digam-me, por favor. Porque não quero ter um post bonito. Quero é mesmo perceber isto...)

(Só uma última nota: o cientista não ataca pessoas, mas sim ideias. Porque sabe que é assim que melhor serve os colegas e a humanidade.)

A desconfiança da ciência

Helena Damião pega num estudo do Facebook para dizer que só é ciência aquilo que segue parâmetros éticos. Não tenho nada contra, em princípio. Mas a definição do que cumpre ou não os determinados parâmetros éticos que queremos aplicar (neste caso, a privacidade) deve ser feita de forma esclarecida, o que nem sempre é fácil e é muito fácil cair num medo que, neste caso, julgo injustificado.

Diz Helena Damião:
Estas considerações são a propósito de um caso concreto (que lamentavelmente tem muitos exemplos conhecidos como o que se pode ler aqui em notícia do jornal Público, e aqui em artigo científico): a "investigação" que grandes empresas de comunicação fazem a partir dos conteúdos que circulam na internet, mais concretamente de mensagens particulares de correio electrónico, sendo que quem as escreve e quem as recebe não é ouvido para dar a sua autorização informada, que indubitavelmente se requer.
No entanto, esta investigação a que se refere Helena Damião não é sobre mensagens particulares de correio electrónico em que quem escreve e recebe "não é ouvido para dar a sua autorização informada". Como comentei no post:
Quando oiço estas notícias fico também preocupado e com medo. Mas, ao mesmo tempo, tento usar uma atitude científica. Se tenho tendência para esse medo de forma instintiva, devo tentar compreender o fenómeno ultrapassando os meus enviesamentos, indo mais fundo na análise e tentando perceber se serão medos justificados. 
Assim, convém analisar mais a fundo a notícia e o estudo citados neste post. Desta forma, há que ter alguma perspectiva:
a) Os utilizadores analisados não viram mensagens privadas de correio electrónicos invadidas por nenhuma empresa a quem não tinham dado qualquer autorização. O que foi analisado foi o comportamento de utilizadores no Facebook, com o qual cada utilizador estabelece um contrato quando cria uma conta. Esse contrato determinada certos deveres e direitos de cada parte e é nesse quadro que a privacidade do utilizador deve ser analisada. Neste estudo, essa privacidade parece-me assegurada. 
b) Os dados dos utilizadores foram analisados de forma aleatória e anonimizada. 
c) Como se pode ler no artigo, ninguém leu mensagens privadas de qualquer utilizador, tendo sido analisada a frequência de "desistências" de posts ou comentários que começaram a ser escritos, sem que o conteúdo desses posts ou comentários tenha sido lido ou analisado. Tem a empresa possibilidade técnica de o fazer? Obviamente que sim e todos os utilizadores do Facebook o sabem. Mas neste estudo não o fez e não deixou fazer. Na realidade, o estudo assemelha-se a um hipotético estudo de companhias telefónicas que analisariam o momento em que os utilizadores desligam as chamadas, cruzando esses dados com dados dos utilizadores (de forma anonimizada) para chegar a conclusões estatísticas sobre o uso dos seus sistemas. Em caso algum é isto comparável a ouvir as próprias conversas telefónicas (embora, mais uma vez, as companhias telefónicas tenham capacidade técnica para o fazer — a pergunta é se o fazem ou não). 
d) Em caso algum as expectativas de privacidade das pessoas saem goradas neste estudo. Situação completamente diferente seria, como o post pode fazer crer erradamente, se uma empresa acedesse a mensagens de correio electrónico alheias, sem que os utilizadores tivessem qualquer contrato ou relação com essa empresa. Não é, manifestamente, o caso.
Felizmente, estamos perante estudos públicos, com protocolos estabelecidos e abertos ao escrutínio público e, por isso, não há que ter medo — mas há que estar atento. Isto é ciência. Ciência seria uma qualquer investigação obscura, não publicada, em circuito fechado.  
(Tenho dúvidas, no entanto, que se possa dizer que este estudo é replicável. Afinal, a única entidade capaz de replicar um estudo realizado pelo Facebook parece ser o Facebook. Mas esse é outro problema.)
Assim, ciência é aquilo que nos faz contornar os enviesamentos humanos através dum estudo racional e testável (uma definição provisória, claro). Esses enviesamentos incluem, por vezes, o próprio medo da ciência (que não deixa de ser útil).
Cumprimentos a todos e um excelente 2014! 

O que é isto?

Here Comes Science
Here Comes Science (Photo credit: Wikipedia)
Isto é um blogue. Tão simples como isso. Este blogue é um instrumento meu para aprender a pensar como um cientista. Porquê? Porque julgo ser útil para as nossas vidas aprender a pensar desta forma. E o que é pensar como um cientista? Veremos, ao longo da vida deste blogue, que espero não ser demasiado curta.

Até já!


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